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Publicidade e saúde infantil: o efeito potencial do marketing sobre o consumo alimentar de uma criança deve ser considerado

Do site Difundir

Alimentos nutricionalmente pobres para crianças são frequentemente anunciados na televisão dos EUA, utilizando apelos emocionais e de saúde. A exposição a essa publicidade pode moldar as crenças de um pai sobre a adequação de alimentos?

por Márcia Wirth

01/12/2015

No dia 03 de novembro, o Decreto nº 8.552, que regulamenta a Lei n° 11.265, de 2006, foi assinado pela presidenta Dilma Rousseff durante a 5ª edição da Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. A legislação trata da comercialização de alimentos para mães e crianças durante o período da amamentação e proíbe, dentre outros pontos, que produtos que possam interferir na amamentação tenham propagandas veiculadas nos meios de comunicação. Assim, papinhas, fórmulas infantis, produtos farináceos, mamadeiras e chupetas passam a sofrer restrições em propagandas, descontos e exposições especiais em supermercados.

“Muitos se posicionaram a favor, como eu, pois a medida incentiva e protege o aleitamento materno. Alguns não entenderam bem a norma e a tomaram como uma proibição da comercialização de tais produtos, o que está completamente fora de questão. Outros consideraram a medida um absurdo, pois ela retira a liberdade de escolha do consumidor. Considero a legislação muito boa, pois produtos que podem afetar a saúde das pessoas realmente merecem normas diferenciadas de publicidade, pois o consumidor, ou seja, o público, em geral, realmente é muito influenciado pelas campanhas de marketing exitosas da indústria de alimentos. Muitas vezes, questionamos uma mãe ou um pai sobre uma escolha alimentar e na raiz do problema está a publicidade agressiva de um alimento X ou Y”, afirma o  pediatra e homeopataMoises Chencinski (CRM-SP 36.349).

Para ilustrar o que o pediatra diz, um novo estudo, publicado no Pediatrics, revista médica da Academia Americana de Pediatria, traz informações muito interessantes sobre o tema.

“Todos já sabemos que os programas de televisão infantis são repletos de comerciais e merchandisings de lanches e bebidas doces (sucos, chás, achocolatados, refrigerantes), relacionando estes produtos com diversão e aventura. Este novo  estudo mostra que a publicidade de alimentos e bebidas para crianças e bebês também têm como alvo os pais, mas com uma mensagem diferente, retratando esses produtos como escolhas saudáveis, apesar da má qualidade nutricional”, conta o médico.

O estudo analisou a publicidade de alimentos e de bebidas infantis veiculada na televisão durante um ano. Os anúncios foram divididos em duas categorias: aqueles dirigidos às crianças diretamente e aqueles dirigidos aos pais, dependendo das características dos anúncios e dos temas. Anúncios que abordaram a relação familiar, por exemplo, foram classificados como dirigidos aos pais.

 Confirmando muitos estudos anteriores, os pesquisadores descobriram que os alimentos e bebidas anunciados durante os programas de TV para crianças eram, em grande parte, produtos nutricionalmente questionáveis, como cereais açucarados e bebidas doces. “Mais surpreendente foi a parte considerável da publicidade de alimentos e bebidas destinadas aos pais das crianças, disseram os pesquisadores. Por exemplo, 73% do tempo total de publicidade das bebidas doces para crianças foi dedicado aos anúncios segmentados para os pais”, afirma Moises Chencinski.

 “Mais significativamente, todos os anúncios de bebidas doces infantis dirigidos aos pais tinham mensagens enfatizando os benefícios nutricionais ou de saúde, apesar de uma relação direta entre a ingestão de bebidas açucaradas e obesidade infantil, cáries e outros problemas de saúde”, destaca o pediatra, que é membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

 Esta estratégia de marketing é muito efetiva, pois os anúncios para as crianças têm o objetivo de aumentar a probabilidade de um pedido de compra por parte da criança e a publicidade voltada aos pais tem o objetivo de minar a capacidade dos pais de dizer "não" ao pedido do filho.

“Os resultados fornecem evidências de que a publicidade de alimentos e de bebidas que promovem um estilo de vida saudável (mesmo não sendo alimentos saudáveis) pode influenciar escolhas dietéticas pobres entre pais e crianças”, diz Chencinski.

Legislação brasileira

“Se colocarmos, lado a lado, o estudo americano e a nova legislação brasileira, podemos depositar esperança no futuro. Se pais, mães, pediatras, nutricionistas e todas as ONGs que lutaram pela regulamentação da Lei n° 11.265 se mantiverem mobilizados e fiscalizarem a implementação da norma, poderemos sonhar com um futuro melhor, onde a inibição da publicidade que prejudica a saúde produzirá bons efeitos para a saúde infantil”, defende o médico.

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545