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Falta fórmula infantil nos Estados Unidos e o leite materno é “atacado”. Oi?

Do portal Papo de Mãe - UOL

Amamentar não é simples, não é fácil e corre risco de deixar de ser natural

por Dr. Moises Chencinski - colunista

16/05/2022

Perdi a conta de quantas vezes já escrevi sobre isso, com todas as controvérsias que possa ter gerado. E a cada dia, a cada nova situação, mais eu me convenço de que não há erro e nem exagero nessa afirmação.

Desde a maternidade, as mães são bombardeadas pelo marketing das indústrias de substitutos de leite materno (SLM), mesmo que haja uma lei clara que proíba isso. Mas, a lei, ora a lei, não é mesmo? Um estudo da OMS mostra que “a indústria global de leite em pó, avaliada em cerca de US$ 55 bilhões, tem como alvo as novas mães com conteúdo personalizado de mídia social que muitas vezes não é reconhecido como publicidade”.

Esse relatório analisou 4 milhões de postagens de mídia social sobre alimentação infantil publicadas entre janeiro e junho de 2021, com postagens que atingiram 2,47 bilhões de pessoas, mais de 12 milhões de curtidas, compartilhamentos ou comentários. As empresas de leite em pó postam conteúdo em suas contas de mídia social cerca de 90 vezes por dia, atingindo 229 milhões de usuários, três vezes mais do que as de aleitamento materno de contas não comerciais.

Então, tentar influenciar mães que querem amamentar, mas se encontram em situação de sensibilidade e vulnerabilidade por inúmeras razões (também exaustivamente discutidas como leis, falta de rede de apoio, de profissionais de saúde materno-infantil atualizados e sem conflitos de interesse, etc.), através de um marketing maciço e incontrolável, mesmo contra leis, é “aceitável” por parcela do mundo e a intenção do marketing é “ajudar as mães” e “nutrir os bebês”.

Vamos aos fatos

Vem sendo noticiada, desde 2020, uma queda na produção de substitutos de leite materno nos Estados Unidos com piora desde janeiro, e agravada de forma significativa no último mês (40% em abril). Essa situação tem causado grande preocupação entre as mães no país, que têm um alto consumo do produto para a alimentação infantil.

Os dados apontam para alguns pontos (conflitos de interesse – já ouviu sobre isso?):

- O Conselho de Nutrição Infantil dos Estados Unidos (INCA) tem, entre seus membros, os maiores fabricantes de fórmulas do país, como Abbott Nutrition, Reckitt Benckiser e Gerber Products Company.

- Apenas 3 empresas são responsáveis por mais de 80% da produção de SLM, nos Estados Unidos (monopólio).

- Em fevereiro desse ano, a Abbott retirou “voluntariamente” produtos do mercado, após quatro reclamações de consumidores relacionadas a contaminação em bebês que consumiram fórmula infantil em pó fabricada nesta instalação.

- Grandes varejistas nos Estados Unidos, para manter seus estoques, estão limitando a quantidade de fórmula infantil que seus clientes podem comprar.

Um pouco de história

Antes de começar, vale reforçar (também exaustivamente) meu posicionamento em relação às fórmulas, às mães que usam fórmulas, aos trabalhadores e à indústria de SML. Não sou contra nada disso. A questão continua sendo o marketing abusivo.

No Brasil, um país de grande evolução do aleitamento materno nos últimos 50 anos, comprovado pelo ENANI-2019, para se atingirem as taxas programadas e desejadas pela OMS para 2.025 e 2.030, ainda teremos muito trabalho pela frente. E, mesmo com os esforços e as ações efetuados aqui, nossas taxas nos últimos 13 anos tiveram um aumento bem menor do que o desejável.

O aleitamento materno não tem essa mesma proteção, apoio e promoção nos Estados Unidos. As taxas por lá são extremamente mais baixas. E a política do país tem se mostrado muito mais favorável ao produto das indústrias do que ao leite materno, como, por exemplo, em 2018, durante a Assembleia Mundial de Saúde em Genebra (Suíça), quando se posicionaram contra a resolução de proteção e incentivo ao leite materno, chegando a fazer ameaças a outros países que apoiavam essa proposta, como foi noticiado na época.

A ideia alegada de “preocupação com a saúde” de bebês e de mães que não amamentavam e dependiam do acesso às fórmulas pode ser questionada. Nessa mesma reunião em Genebra, os EUA tiveram sucesso na iniciativa de remover, de um documento sobre a luta contra obesidade, declarações de apoio à taxação de refrigerantes. A saúde de quem estava em defesa nesse momento?

E o leite materno com isso?

Com a escassez das fórmulas, muitos comentários abordavam a importância de, até em situações como essa, apoiar e promover a amamentação. Entre esses, por exemplo, Bette Midler, cantora, atriz, modelo, roteirista, produtora, comediante norte-americana, reagiu a essa notícia em seu twitter, dizendo: “Tentem amamentar. É gratuito e está disponível em livre-demanda.”

Essa postagem causou reações contrárias e revoltadas de muitas mães e até de profissionais de saúde que se sentiram atacados pelo posicionamento. “As pessoas estão exagerando por causa do tweet anterior. Não há vergonha se você não pode amamentar, mas se você pode e está de alguma forma convencida de que seu próprio leite não é tão bom quanto um “produto cientificamente pesquisado”, isso é outra coisa novamente”, foi a resposta de Bette a essas críticas.

Reflexão

Fazer marketing abusivo a favor do uso de fórmulas infantis, mesmo contra a lei, para mães que estão amamentando ou querem amamentar, estão sensíveis e vulneráveis, é aceitável e não representa nenhum problema.

Falar sobre a importância do leite materno para mães que usam exclusivamente a fórmula infantil ou fazem aleitamento misto, em situações que representam riscos à saúde dos bebês, é agressivo, inaceitável e cruel.

O mundo está estranhamente polarizado.
Se você não está a favor de uma ideia, então você está contra e é um “inimigo”.

Respeito é bom e eu gosto.
Respeito às mães e suas decisões informadas.
Respeito a outras opiniões.
Respeito aos bebês e às crianças e aos adolescentes.
Respeito à ciência, à saúde e à vida.

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545