Bíblia (Lamentações 3.21)
por Dr. Moises Chencinski - colunista
12/01/2026
Pra começar, vai aí uma dica.
Assista ao “Agente Secreto”, que venceu a categoria de melhor filme de língua não-inglesa e que teve Wagner Moura premiado como melhor ator no Globo de Ouro, no dia 11 de janeiro de 2.026.
Mas, prepare-se.
Se você conhece a história, pode não conseguir chegar ao final da sessão. É de embrulhar o estômago (uma “confirmação digna” de “Ainda estou aqui”). Se você não viveu ou não leu a respeito ou só ouviu alguém contar ou não deu a devida atenção aos fatos que aconteceram por aqui, pode cair na armadilha de achar que é uma obra de ficção.
No discurso de premiação, Wagner Moura foi, mais uma vez, brilhante e cirúrgico. Vale acompanhar na íntegra o que ele disse, mas ressalto, aqui, três frases (a última fica para o fnal do texto):
“O Agente Secreto é um filme sobre memória, ou, a falta de memória e trauma geracional”.
Por isso, é necessário se falar constantemente sobre a história. Contar. Recontar. Transmitir por fatos, pelas palavras, pelas emoções. Para que nunca seja esquecido. Sem memória, sempre se corre o risco de se repetirem erros graves. E isso é a nossa realidade. Frase atribuída a James R. Schlesinger: “Todos têm direito à própria opinião, mas não aos seus próprios fatos”.
“Se o trauma pode ser passado através de gerações, valores também podem”.
Educação. Cultura. Arte. Ciência. Dignidade. Tudo isso e muito mais pode, e deve, ser “passado através de gerações”. Mas, para isso, é necessário conhecer os fatos a fundo e não a “opinião” sobre os fatos.
Pingos nos “is” e acentos nos “es”
Mesmo para se emitir uma opinião, aquela a que todos têm direito, é fundamental conhecer os fatos. E, pela responsabilidade que profissionais de saúde têm em relação a seus pacientes, alunos, seguidores de redes sociais, o peso desses fatos se torna muito mais relevante, porque “educamos” através de nossas ações e nossas palavras e criamos memórias.
Janeiro começou com uma bomba e essa me incomodou muito. A empresa Nestlé estava recolhendo preventivamente produtos identificados em sua fábrica distribuidora na Holanda, por conta da detecção de cereulide, uma toxina produzida pela bactéria Bacillus cereus que pode causar diarreia, vômitos intensos, prostração e quadros mais graves em grupos de crianças mais suscetíveis como prematuros ou imunodeprimidas (não houve detecção confirmada de nenhum caso no mundo até o momento em que escrevo esse texto).
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu a comercialização, distribuição e uso dos lotes considerados contaminados produzidos no Brasil, através de notificação (Resolução 32/2026, publicada no dia 6 de janeiro no Diário Oficial da União). Segundo a Anvisa, “A medida tem caráter preventivo. A fabricante iniciou o recolhimento voluntário no Brasil, assim como no resto do mundo, após a detecção da toxina em produtos provenientes de uma fábrica localizada na Holanda.”
Após o “recall”, as ações da empresa sofreram uma queda entre 2% e 5% em suas ações no mercado. Segundo dados da revista Exame, a multinacional “responde por quase um quarto do mercado global de nutrição infantil, estimado em US$ 92,2 bilhões, segundo a consultoria SkyQuest Technology Group. Embora não divulgue dados específicos de vendas por categoria, a divisão de Nutrição e Health Science — que inclui fórmulas infantis — representou 16,6% da receita total de 91,4 bilhões de francos suíços em 2024.”
A partir daí, muitas manifestações elogiosas em prol da vigilância e ação imediata e voluntária da multinacional passaram a circular nas redes sociais (e isso também me incomodou muito), inclusive com divulgação de uma carta encaminhada aos pediatras, através de mala direta da empresa (estranhamente ou não, eu não recebi esse e-mail) e a recomendação de interromper imediatamente o uso e entrar em contato com o Atendimento ao Consumidor da Nestlé para devolução gratuita e reembolso integral.
Isso é o que acontece e pouca gente te conta
Em artigo publicado pela revista internacional “Food Ingredients First”, uma fonte líder de notícias no setor global de alimentos e bebidas há mais de 25 anos, com o título “Nestlé é criticada por atraso inaceitável no recall histórico de fórmulas infantis”, a cronologia demonstra que “os fatos” talvez não tenham acontecido como relatados, o que pode modificar a “opinião” sobre a situação.
A Foodwatch, uma organização internacional sem fins lucrativos, que não aceita financiamento de governos, da União Europeia ou da indústria de alimentos, na sua homepage, traz hoje ainda a matéria sobre o recolhimento em massa de alimentos infantis da empresa (mais de 800 produtos em 60 países), criticando “o atraso no alerta público e exigindo punições mais severas pelas violações de segurança alimentar”.
Tanto a multinacional quanto as autoridades sanitárias holandesas já sabiam da contaminação desde o começo de dezembro de 2.025, quando a empresa relatou a contaminação, sem que nenhum recolhimento público tivesse sido realizado ou notificado.
Segundo a instituição, ”a empresa e as autoridades sanitárias ocultaram informações vitais do público durante semanas, colocando em risco a segurança do consumidor”, por quase um mês (09/12/2025 a 05/01/2026), quando a “rastreabilidade, principalmente para produtos para bebês, deveria ser imediata”.
Segundo a Foodwatch, “em 2025, a empresa recolheu fórmulas infantis na Bélgica e em Luxemburgo devido à presença da bactéria Cronobacter spp. , e na França devido à contaminação por ocratoxina”, entre outras queixas apresentadas contra a empresa, que sofre processos nos Estados Unidos e outros países.
Esses são os fatos. Opiniões? Analise agora. E, mesmo quem opiou anteriormente, sem esse embasamento, poderia (e deveria) rever cuidadosamente seus posicionamentos.
Ainda estou aqui
Durante grande parte da minha vida, por conta da minha educação, minha vivência, meus valores, eu pensei que nasci na época errada e no país errado. Hoje, eu tenho certeza de que a época é essa e o país é esse e que os valores são esses. Eu só não enxergava e não avaliava qual era o meu papel. Talvez esteja encontrando o meu caminho. Ou, sendo um pouco mais justo e pegando mais leve comigo mesmo (proposta para 2.026), talvez eu tenha sempre seguido esse caminho e, só mais recentemente, comecei a compreender o que me manteve nele desde há muito tempo.
“O errado é errado mesmo que todo mundo esteja fazendo.
O certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo”.
Da adaptação de trecho do livro "Considerando todas as coisas" de G. K. Chesterton e um pensamento por vezes também atribuído a Santo Agostinho.
Ética. Ciência. Justiça. Educação. Despreconceito. Verdade. Saúde.
Não necessariamente nessa ordem, mas são valores e princípios inegociáveis. Posso ter falhado, e errei com toda certeza durante essa minha trajetória. Posso ter pecado pelo desconhecimento, pela desinformação.
Muitas vezes, sou considerado o “copo meio-vazio”. Sou com certeza. Mas, como eu explico (ou tento) não é o pessimista e sim o que enxerga que ainda tem meio copo para encher. E ele não vai se encher sozinho, espontaneamente. Daí a insistência. E essa vai ser, como tem sido até hoje, com toda certeza, missão de vida. E vai ser aqui, no Brasil, e agora nesse século (na verdade, desde o século passado), enquanto eu estiver aqui.
Para terminar, a terceira frase de Wagner Moura que deixei para o final, a que encerra seu depoimento:
“Viva o Brasil. Viva a Cultura brasileira”.
Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545