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Amamentar tem começo, meio e começo

Do site da Crescer

O pediatra e colunista da CRESCER traz uma reflexão que, apesar de estranha, é relevante: "Potente e, ao mesmo tempo, de uma simplicidade reveladora e de uma complexidade provocante"

por Dr. Moises Chencinski - colunista

03/03/2026

Parece estranho, né? Essa é uma reflexão muito relevante, pelo menos para mim. E ela não é minha. Ela vem de Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo (1959-2023), quilombola do Piauí, ativista político, escritor e poeta.

Um vídeo do YouTube traz uma fala dele, com ele, potente, ao mesmo tempo de uma simplicidade reveladora e de uma complexidade provocante. E esses atributos (potência, simplicidade, complexidade) são tão amamentação que chegam a assustar e confortar de tanta poesia.

Eu vejo uma situação
Não sei como resolver
Eu mando uma poesia
Tá faltando muita poesia nas nossas vidas
Mas faltando poesia mesmo
Poesia declamada.

Nós somos o começo, o meio e o começo
Existiremos sempre
sorrindo nas tristezas
para festejar a vinda das alegrias.”

Em um texto que eu escrevi aqui para a Crescer, faço minha lista sobre “o que levar para a maternidade”. Reforcei que o primeiro item que não podia faltar era a ancestralidade. E recomendei a leitura de uma “oraliteratura” de Katiúscia Ribeiro (quilombola do Rio Grande do Sul, filósofa, autora, pesquisadora) - O futuro é ancestral - que destaca que “Ancestralidade é o futuro. História é memória”.

A amamentação não começa quando nasce um bebê e não acaba no desmame. Uma criança amamentada recebe o padrão-ouro da alimentação infantil. O leite materno é um alimento vivo que é único para cada bebê, de acordo com a duração da gestação (prematuros ou de termo), que se transforma do começo ao final da mamada, do começo ao final do dia e de acordo com o passar do tempo, favorecendo o crescimento e o desenvolvimento em cada fase da sua vida, suprindo suas necessidades a cada momento.

Quando uma mãe que está amamentando engravida novamente, ela pode continuar a amamentar sem riscos. Não há nenhuma indicação de desmame nessa fase que é conhecida como lactogestação. Aí chega um recém-nascido. E a mãe lactante pode manter a oferta do seu leite aos dois ao mesmo tempo, o que é conhecido como amamentação em TANDEM.

E o que acontece com o leite materno maduro que nutria o lactente maior? Ele não acaba. Ele tem um começo (colostro), ele chega ao meio (leite maduro) e ele volta ao começo (colostro) e nutre adequadamente o recém-nascido (de forma exclusiva) e lactente maior (que já se alimenta com “outro cardápio”), até que esse leite “amadureça” e seja o mais adequado para o dois.

Segundo palavras de Nêgo Bispo, “somos povos de trajetórias, não somos povos de teoria. Somos da circularidade: começo, meio e começo.” São linhas que reforçam a ideia de que a ancestralidade não está no passado, mas se refaz continuamente no presente e no futuro.

O leite materno participa de uma base cientificamente comprovada na redução da mortalidade infantil por quadros de doenças infectocontagiosas através de passagem de anticorpos da mãe para o bebê. Além disso, o ato de amamentar traz proteção para quem amamenta. A produção do leite materno (começo), oferecida ao bebê (meio) protege a lactante (de volta começo), diminuindo os riscos de câncer de mama, de ovário e de depressão pós-parto.

Uma das razões para a recomendação de uma consulta com o pediatra a partir da 32ª semana de gestação é abordar a doação do leite materno. Após o parto, assim que a amamentação se estabelece, a mãe já pode começar o processo da doação. Há informações nas redes sociais e o apoio pode ser obtido na própria Rede de Bancos de Leite Humano (Rede BLH). Entrando em contato com o Banco de Leite, além das orientações, pode-se receber a visita de seus funcionários tanto para orientação de como doar, quanto para coleta do leite doado, quando possível. Cada gota de leite conta.

Essa doação será recebida pela Rede BLH, analisada (avaliação das doadoras e do leite). Estando tudo de acordo, esse leite será direcionado aos prematuros internados que não podem ou não conseguem ser amamentados diretamente por suas mães, favorecendo sua recuperação.

No Brasil, não se recomenda que o leite seja doado diretamente a outro bebê sem a avaliação clínica e laboratorial da doadora e sem a análise muito criteriosa e rigorosa do leite (amamentação cruzada). Ele será utilizado para prematuros que são mais sensíveis imunologicamente. A lei não permite qualquer cobrança pelo leite doado no Brasil.

Quando a mãe volta ao trabalho, a única mudança é que ela passa a “doar” seu leite para seu próprio filho, armazenando-o da forma adequada para alguém oferecer a ele, quando ela estiver no trabalho. Ou, se o bebê já frequenta uma creche, seguindo as recomendações já estabelecidas por estudos científicos, o leite extraído pode ser levado e armazenado para ser oferecido ao bebê, enquanto ele não pode mamar diretamente de sua mãe.

Com esses poucos exemplos (tem muito mais), fica claro que o leite materno e a amamentação cumprem um roteiro circular que tem começo, meio e começo. É um caminho. É uma história que não tem fim. E todos nós fazemos parte dessa rede de apoio para que cada mãe que quiser e puder consiga amamentar seus bebês pelo tempo que decidirem.

E acabo, ou melhor, começo mais uma vez, no mesmo caminho que comecei da primeira vez. Com mais um pensamento de Nêgo Bispo: 

Nós somos a gira, da gira, na gira
A nossa trajetória nos move
A nossa ancestralidade nos guia”.

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545