Do site da Crescer
O pediatra e colunista da CRESCER reflete que, entre ciência e afeto, amamentação e vacinação revelam como atuam de formas diferentes — e complementares — na proteção dos bebês, enquanto ainda enfrentam baixa adesão e desafios nas políticas públicas de saúde infantil
por Dr. Moises Chencinski - colunista
24/04/2026
Muito se fala sobre a dupla dinâmica, o Batman e o Robin (sem saber quem é quem) da saúde infantil. Seus caminhos se cruzam constantemente. Os dois até poderiam seguir carreiras solo, cada um por si, como ações potentes e eficazes. Imagine juntos.
Leite materno e vacinação: Duas defesas, um compromisso - proteger desde o início.
E apesar de estudos e comprovação científica, de serem altamente eficientes, de terem custos muito irrelevantes (quando têm algum) se comparados à concorrência, não são suficientemente valorizados, como deveriam ser.
A ver as últimas taxas de aleitamento materno que foram divulgadas (ENANI-2019 – atenção que é link novo) comprovando 62% de aleitamento materno (AM) na 1ª hora de vida, uma mediana de aleitamento materno exclusivo (AME) de 3 meses, 45,8% de AME em crianças abaixo de 6 meses, com aumentos pouquíssimo significativos desde 2006. Em 2.026 deveremos ter dados novos de pesquisa em fase de análises.
As taxas oficiais de cobertura vacinal em crianças menores de 2 anos que comparam 2023 e 2024 mostram pequena evolução, com alguns dados até em queda (Meningite C, varicela), alguns estáveis (Rotavírus, Pólio Injetável, Pentavalente, Febre Amarela, Hepatite A) e alguns aumentos (BCG, Tríplice Viral e os primeiros reforços da Pneumococos, Meningite C e Tríplice bacteriana). Só duas atingiram a proposta de 95% de cobertura (Tríplice viral – 1ª dose e Pólio oral bivalente). Em 2025 alguns índices mostraram recuperação, com aumento de 15 das 16 principais vacinas infantis em relação a 2.024, mas nenhuma delas cumpre as metas de 95% de cobertura vacinal.
Mas afinal, leite materno é a primeira vacina que um bebê recebe?
Vamos começar com outra frase feita, famosíssima (em alguns ambientes):
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Dois conceitos fundamentais para que se compreenda melhor o que esperar de cada um – leite materno e vacinação. Gosto dessa explicação do site da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações):
Imunização ativa — Capacidade que o organismo tem de produzir anticorpos específicos ao entrar em contato com vírus, bactérias e outros agentes. Pode ser natural, após infecção no ambiente, ou artificial, por meio da vacinação.
Isso significa que o bebê tem contato direto com o agente (adoece) ou recebe uma vacina (vamos especificar nesse caso). A vacina dá uma “dica” para o bebê, sobre a ação de algum agente que provoca a doença e estimula o seu sistema imunológico a produzir anticorpos específicos contra esse agente agressor. Quando ele tentar infectar esse bebê novamente, o seu sistema imunológico (memória) produz uma quantidade muito, mas muito, muito mesmo maior de anticorpos em um tempo muito, mas muito, muito mesmo menor, o que impede que o vírus ou bactéria produzam a doença ou a enfraqueçam de tal forma que a criança sofra o mínimo possível.
Imunização passiva — Proteção temporária fornecida por meio de anticorpos prontos. Pode ser natural (da mãe para o feto, via placenta ou leite materno – vou falar sobre esse aqui) ou artificial (administração de soros ou imunoglobulinas).
Tantos estudos. Tanta ciência.
Quando o bebê está doente e mama direto do seio materno, sua saliva entra em contato com o mamilo da mãe e “mensagens” passam para o corpo dela (“fluxo retrógrado”). A resposta é um rápido reconhecimento sobre o que está acontecendo e um reajuste na composição do leite, aumentando, por exemplo, a quantidade de anticorpos específicos, glóbulos brancos e outros componentes protetores, favorecendo a recuperação.
Uma mãe recebe uma vacina e produz anticorpos contra as doenças relacionadas a ela. Esses anticorpos passam para o lactente através do leite materno e o protegem pelo período de sua duração (cerca de 6 meses em muitos casos). Por conta dessa informação, por exemplo, muitas mães nos Estados Unidos que tinham passado pelo desmame, na época da COVID-19 se vacinaram e voltaram a amamentar seus bebês, para transferir essa proteção através dos anticorpos produzidos pela administração da vacina (“validade desses anticorpos” de cerca de 6 meses).
A primeira faz tchan, a segunda faz tchum e tchan-tchan-tchan-tchan!!!
Se você não viveu a época das propagandas nos idos de 1980, não vai entender essa referência. Procura no Google, IA, etc. Foi uma publicidade de lâminas de barbear que “bombou” na época (hoje seria “viralizou”).
O leite materno e as vacinas andam juntos na defesa das crianças em relação a doenças infectocontagiosas de forma geral.
As vacinas, através de muita pesquisa, muito estudo científico, 4 fases de testes, participação de uma equipe multiprofissional de pesquisadores, trazem imunidade específica contra as doenças para as quais elas foram fabricadas.
O leite materno traz proteção temporária através dessa “comunicação” da díade mãe-bebê para essas mesmas doenças que as vacinas imunizam, sejam elas aplicadas na lactante (mãe) ou no lactente (bebê) e de muitos outros quadros para os quais ainda não existem vacinas próprias.
Proteção, imunização, vacinação, amamentação.
Há diferenças. Há semelhanças. Mas todos são importantes e não podem faltar na proposta de saúde materno-infantil.
Mamanalgesia: sabe o que é isso
Explicando: É o ato de amamentar durante qualquer processo potencialmente doloroso (coleta de exames, vacinação, por exemplo).
Não dava para deixar passar essa situação em especial na qual amamentação e vacinação se encontram e celebram a saúde materno-infantil.
Já escrevi sobre esse tema aqui na minha coluna da Crescer e recentemente, um artigo de revisão brasileiro, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Enfermagem Pediátrica (SOBEP), confirmou “amamentação segue como a melhor intervenção não farmacológica para aliviar a dor em recém-nascidos e lactentes. Porém, aleitamento materno pode ser usado junto com outras intervenções para potencializar os efeitos analgésicos durante procedimentos dolorosos.”
E isso já é recomendação no Brasil (Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação, do Ministério da Saúde) desde 2014 (pg. 50):
“Caso a criança esteja em aleitamento materno, oriente a mãe para amamentá-la durante a vacinação, para maior relaxamento da criança e redução da agitação.”
Para concluir, uma reflexão:
Sem política pública, amamentar vira privilégio. Sem vacina, viver vira risco.
#CuidarEmRede #DoPeitoàVacina #DuplaProteção #NinguémCuidaSozinho #RedeQueApoiaeProtege #AmamentarVacinar
Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545