Do site da "Crescer"
O pediatra Moises Chencinski questiona por que o aleitamento materno só ganha destaque em um mês do ano e defende que o apoio às mães precisa ser permanente
por Dr. Moises Chencinski - colunista
29/08/2026
Muita calma nessa hora. Peraí. Tá, não precisa ficar com essa cara. Só perguntei. Afinal, perguntar não ofende, né?
Já estudo e atuo na área do aleitamento materno há algum / muito tempo. Na Semana Mundial de Aleitamento Materno de 2014, que tinha como tema “Aleitamento materno: uma vitória para toda a vida”, entre as minhas atividades, conversamos sobre a questão de se abordar a amamentação apenas na primeira semana de agosto.
E a pergunta que não queria calar e que ficava sempre sem resposta era:
- Por que não falamos sobre aleitamento materno todos os dias?
- “Ah, não tem tema suficiente...”
Tinha (e tem).
- “Ah, mas isso já é abordado em cursos universitários de formação...”
Não era (e continua não sendo) nem em quantidade ou em qualidade suficientes.
- “Ah, mas isso vai requerer muito tempo...”
Perdemos mais tempo tentando recuperar as consequências da desinformação na amamentação.
- “Ah, mas é um tema que não tem novidades...”
Estudos de atualização e pesquisa existem constantemente (mais de 35 mil estudos nos últimos 10 anos em uma só fonte de pesquisa).
Vale lembrar que o AGOSTO DOURADO só foi criado (lei 13.345) em 2.017. Até então, essa celebração durava apenas uma semana (1 a 7 de agosto).
Isso me incomodou e essa foi a razão para em 2014 eu criar o meu primeiro perfil do Instagram (@euapoioleitematerno) que dois anos depois gerou meu segundo perfil (@doutormoises). A partir de 2014, eu passei a abordar diariamente a amamentação através de postagens, depois com depoimentos e fotos de mães, depois de algum tempo começaram a chegar vídeos, alguns viralizados (em 2016, imaginem?), que utilizei em apresentações e aulas.
Já há alguns (3 a 5) anos, em minhas participações e viagens nos “agostos dourados”, a conversa mudou.
A partir de então, a pergunta que não quer calar passou a ser:
- Por que abordamos com tanta intensidade o aleitamento materno especialmente no Agosto Dourado, um pouco no Novembro Roxo (mês dedicado à prematuridade) e uma coisiquinha em maio, quando se aborda a doação de leite humano? E os outros meses?
Nem preciso repetir a história. Não é que não se trate do assunto em outros momentos, mas, com certeza, não na mesma frequência, intensidade e ênfase. Um exemplo? Vamos ao Google? Procure: AMAMENTAÇÃO.
ABRIL/2026: 143.000 resultados
MAIO/2026: 307.000
JUNHO/2026: 398.000
JULHO/2026: 227.000
AGOSTO/2026 (1 a 29): 4.550.000
Só para fins de comparação, vou pegar os dados de setembro e outubro de 2.025:
SETEMBRO/2025: 196.000
OUTUBRO/2025: 175.000
Ficou claro, né? Por que isso acontece? E vamos nós, novamente, para as mesmas “desculpas”?
Será que...
- Em agosto as mães acumulam conhecimento suficiente e de setembro a julho do ano seguinte já não têm tantas dúvidas e não necessitam de apoio, proteção e promoção da amamentação para atingirem seus objetivos?
- Em agosto, os profissionais de saúde e os não profissionais, mas blogueiros e influenciadores da amamentação, despertam para a importância e relevância do aleitamento materno na saúde materno-infantil, se conscientizam (temporariamente) sobre a seriedade do tema, decidem compartilhar “conhecimento” e, a partir de setembro, resolvem “contribuir” com outra bolha?
- Em agosto, aparecem os “oportunistas da amamentação”, que ficaram tratando de outros assuntos importantes durante o ano e agora, “do nada”, aparecem em busca de likes? (Peguei pesado aqui? Será?)
E eu poderia criar de dezenas a milhares de teorias, cada uma delas abordando algum recorte relacionado à amamentação, às mães, às famílias, à situação socioeconômica e/ou cultural, ao clima, às leis, ao trânsito, ao agosto dourado e assim, indefinidamente, sem realmente justificar essa “sazonalidade da informação” nas redes sociais.
AMAMENTAÇÃO NÃO É UM EVENTO. É UMA RESPONSABILIDADE PERMANENTE
Quando falamos sobre saúde, não existe bala de prata, ou seja, aquela única ação que vá resolver todos os problemas. Até porque, se tivéssemos que falar de forma adequada, a saúde envolve várias “sub-saúdes”, vários departamentos que precisam estar coordenados, em conjunto, cada parte pelo todo: mental, física, social, econômica, jurídica, emocional, afetiva, educacional e não vou conseguir completar essa lista.
Vacinação em dia sem afeto familiar ou alimentação adequada sem educação formal satisfatória e inclusiva ou crescimento e desenvolvimento “dentro da curva” sem contato necessário com a natureza são partes que podem até compor um todo, mas não seria um todo inacabado?
E quando se trata de amamentação, só Agosto Dourado é muito pouco para que cada mãe que deseje e possa consiga amamentar. Se uma só mãe que queira amamentar não amamenta, a falha é do sistema. E, com toda certeza, não será um mês por ano que vai influenciar e possibilitar a cada mulher que ela alcance sua meta de amamentação.
Nossa atenção, nosso cuidado, nosso foco devem ser permanentes e constantes. Não dá para baixar a guarda porque, por mais incrível que possa parecer, os desafios que uma mãe precisa superar para atingir seus objetivos e “apenas” amamentar sua cria, são muito potentes e impiedosos. Não há, hoje, leis suficientemente boas, não há controle do marketing suficientemente eficaz, não há rede de apoio suficientemente abrangente e não há condições suficientemente capazes de garantir que cada díade mãe-bebê sejam plenos e felizes.
E tudo isso pode ser mudado, antes de tudo, pela conscientização de que há muito a se fazer (olha o meu conhecido copo meio vazio aí). E precisamos agir. Sempre.
AMAMENTAÇÃO: TODO MÊS IMPORTA.
E para concluir, frase atribuída a José Saramago:
“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.”
Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545