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Amamentação deve ser inclusiva e prolongada, já a partir de setembro

23/09/2026

Vou abrir e fechar esse texto com citações de Robin Willians, ator, comediante, filantropo e dublador americano (21/07/1951 – 11/08/2014).

“Primavera é a forma de a natureza nos dizer: vamos festejar.”

Quando aprendemos sobre as estações do ano, como é que nos ensinam?
Primavera, verão, outono, inverno. Por que começamos nessa ordem, pela primavera, que só é o começo do ano no calendário judaico?

Em latim, primavera significa "primeiro verão" ou o começo do verde. Ela representa o início da vida, das cores e das flores após o frio. É conhecida como a "estação das flores", quando a natureza floresce e o clima fica mais ameno.

Mas a primavera não esconde de onde veio e para onde vai. Ela revela uma estação de transição do frio para o calor (isso de forma literal). Mas não dá para dizer que ela seja morna. Ela transforma olhares, muda percepções, reconstrói caminhos, redireciona as trajetórias.

E é lógico que vocês, que me conhecem o suficiente, já imaginam que esse artigo não é sobre o clima as estações do ano. A proposta é traduzir aqui a ideia da amamentação em palavras, dentro da proposta de abordar esse tema em todos os seus aspectos, todos os meses.


AMAMENTAÇÃO: TODO MÊS IMPORTA.

E setembro não seria diferente. Então, vamos ao que me interessa. Você sabe por que cada mês tem suas cores representativas, em laços coloridos? Conscientização da população sobre campanhas de saúde, prevenção de doenças e causas sociais. Mas tem mais causas do que meses ou cores. Então as tonalidades se repetem em causas e meses diferentes.

Acabamos de sair do AGOSTO DOURADO (Amamentação), mas que também é LILÁS (combate à violência contra a mulher), LARANJA (conscientização sobre esclerose múltipla) e VERDE (combate aos linfomas).

Em setembro, a variedade é muito maior. Mas, analisando cada cor de laço, cada tema, a imensa maioria pode receber influência positiva da amamentação, na proteção e promoção de saúde.

Assim, setembro policromático pode ter a inspiração da PRIMAVERA, com nuances de matizes multicoloridas, mas, aqui, embasada na ciência, em estudos e publicações, o aleitamento materno mostra sua força, sua potência.

Principais Campanhas e Cores de Laços de Setembro.

LAÇO AMARELO - Prevenção ao suicídio: #setembroamarelo

A cada dia, estamos mais atentos (ou pelo menos deveríamos estar) à saúde mental da lactante. Blues puerperal e depressão pós-parto são situações cada dia mais observadas e diagnosticadas e merecem uma abordagem precoce, firme, para que a amamentação e a vida da mulher corram menos riscos.

Existe uma relação entre a amamentação e a prevenção do suicídio, que é uma das principais causas de mortalidade materna nesse período, quando os quadros não são observados e tratados adequadamente.

Esse estudo publicado no Journal of Affective Disorders (2026), realizado na Coreia com 2.357.914 mulheres com idade maior ou igual a 30 anos, acompanhadas por cerca de 12 anos mostrou 4.493 mortes por suicídio. Os dados mostraram que o parto e a amamentação foram associados a um risco reduzido desse desfecho. Além disso, o risco apresentou um padrão de diminuição com o aumento do número de partos e da duração da amamentação.

LAÇO AZUL- Campanha de conscientização aos direitos das pessoas surdas #setembroazul

Existe uma legislação que garante a pessoas com deficiências auditivas direitos à educação, saúde e acompanhamento especializado e suporte com tradução em Libras (Língua Brasileira de Sinais) em hospitais e unidades de saúde.

O Decreto nº 5.626/2005 e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) garantem que o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça profissionais capacitados ou intérpretes de Libras, inclusive para apoio à maternidade e paternidade.

Esse artigo publicado no Maternal and Child Health Journal (2022), feito em Gana, com 55 pessoas das comunidades e informantes, demonstraram que a maioria das mulheres com deficiência passa por partos cesáreos, o que pode dificultar o aleitamento materno exclusivo. Além disso, o desencorajamento por parte de alguns profissionais de saúde e familiares, podem impedir que mulheres com deficiência amamentem exclusivamente seus bebês. 

LAÇO DOURADO – Alerta para o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil #setembrodourado

O câncer infantojuvenil tem desafios, mas também tem cura. Atenção aos sinais.” Esse é o tema da campanha para 2.026, com Nota Técnica (Nº 19/2026) do Ministério da Saúde, que busca trazer informação qualificada, baseada em evidências científicas, para observar os sinais precocemente e buscar atendimento imediato para a maior causa de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos no Brasil, com uma estimativa de 7.560 novos casos por ano previstos entre 2026 e 2028. Porém, com tratamento precoce em centros especializados, as chances de cura podem chegar a 80%.

Essa revisão sistemática publicada no BMC Medicine (2021), realizada na China, com 33 artigos, associando a amamentação (presença e duração) com o risco de leucemia infantil corrobora o papel protetor do aleitamento materno.

Outra meta-análise, publicada no Nutrients (2023), após revisão das evidências disponíveis que avaliam os fatores nutricionais no início da vida e o risco de leucemia aguda infantil, apontaram para o papel protetor do aleitamento materno no desenvolvimento da leucemia aguda infantil e, embora sejam necessárias mais pesquisas, pode ser recomendado como um fator que contribui para a prevenção desse quadro.

LAÇO LARANJA – Combate à Obesidade Infantil #setembrolaranja

Essa é uma campanha criada pela Sociedade de Pediatria de São Paulo, com a proposta de alertar e conscientizar a comunidade médica e a população em geral sobre a importância de uma alimentação saudável, em casa e nas escolas e estimular a prática de atividades físicas entre crianças e adolescentes. Entre os problemas associados à obesidade, destacam-se os ortopédicos, imunológicos, de crescimento e desenvolvimento, metabólicos e autoestima da criança/adolescente, além do bullying que podem trazer impactos na sua saúde mental.

O Atlas Mundial de Obesidade 2026 coloca o Brasil entre os 10 (o 6º) países com as maiores taxa de crianças de 5 a 19 anos com IMC elevado (17 milhões) e vivendo com obesidade (7 milhões – 7º) em 2.025. Outra tabela mostra as taxas de crianças entre 5 e 19 anos com hipertensão arterial, hiperglicemia, triglicérides aumentados e disfunção metabólica atribuídas ao IMC elevado com dados em 2025 e (alarmante) previsão para 2.040 e as ações de políticas públicas para existentes no país.

São muitos os estudos que correlacionam o aleitamento materno com o menor risco de sobrepeso/obesidade em diversas situações, entre elas, em crianças com alto peso ao nascer (Coreia – publicado em 2019), em crianças com aleitamento materno exclusivo até o sexto mês (Chile – 2025 / Paquistão – 2026) e muitos outros.

LAÇO VERDE - Conscientização sobre a inclusão da pessoa com deficiência #setembroverde

O dia 21 de setembro marca o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, instituído oficialmente pela Lei nº 11.133/2005. A escolha da cor verde representa a esperança na construção de um país mais acessível, justo e igualitário. É necessário dar visibilidade aos direitos previstos na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e combater o capacitismo, que, entre muitas outras consequências, ainda cria barreiras para mulheres com deficiência durante a gestação, o parto e a amamentação. A falta de acessibilidade, materiais adequados e profissionais capacitados pode dificultar o acesso à orientação e ao cuidado. Informações em Libras, audiodescrição, linguagem simples e outros formatos ampliam a autonomia e a segurança. A deficiência não impede a amamentação: mulheres com deficiência podem amamentar e crianças com deficiência têm direito ao leite humano. Adaptações, tecnologias assistivas, apoio domiciliar e equipes preparadas ajudam a superar obstáculos.

Uma revisão (Austrália – 2025) com foco na amamentação em mulheres com deficiência visual conclui que muitos dos desafios da amamentação enfrentados por são bastante semelhantes aos da população em geral e que a baixa visão e a cegueira tornam o aprendizado da amamentação mais desafiador e aponta para a necessidade de os profissionais de saúde em formação específica para esse cuidado.

Uma meta-análise (Turquia – 2026) reforça que que mães com deficiência física apresentaram taxas de aleitamento materno mais baixas do que a população em geral e enfrentaram desafios multidimensionais durante o processo de amamentação. 

LAÇO VERMELHO – Conscientização e prevenção de doenças cardiovasculares #setembrovermelho

Segundo posicionamento do Departamento de Cardiologia da Mulher, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, as doenças cardiovasculares (DCV) já são a principal causa de morte entre mulheres no país, superando até o câncer. O subdiagnóstico de quadros como como hipertensão na gravidez, síndrome dos ovários policísticos, menopausa e uso de contraceptivos hormonais, condições como diabetes, obesidade e sedentarismo atrasa o início do tratamento e aumenta os riscos de complicações graves, como infarto e AVC, afetando inclusive mulheres jovens.

Uma meta-análise publicada pela Associação Americana de Cardiologia (2022), com avaliação de mais de um milhão de mulheres, aponta para uma redução de riscos em Doenças Cardiovasculares (11%), Doença Arterial Coronariana (14%), Acidente Vascular Cerebral (12%) e eventos fatais de doença cardiovascular (17%) em mulheres amamentaram em algum momento da vida quando comparadas às que nunca amamentaram. Esses efeitos são maiores para períodos mais longos de amamentação (até 12 meses).

SETEMBRO EM FLOR #setembroemflor

Eu poderia acabar esse artigo agora com esse tanto de informações? Poderia.
Eu poderia voltar à primavera para fechar o texto de forma suave e leve? Poderia.
Mas, seria eu se fosse assim? Lógico que não.

Setembro em Flor é uma açãoidealizada pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) com apoio da FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia): Campanha de Conscientização Sobre os 5 Tumores Ginecológicos (câncer de colo de útero, endométrio, ovário, vagina e vulva). Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), aproximadamente 30 mil mulheres brasileiras recebem anualmente diagnósticos de câncer ginecológico. 

O FUTURO É AGORA é o tema para 2.026, um convite para agir no presente, ampliar o conhecimento, incentivar o diagnóstico precoce, reforçando a importância de transformar conhecimento em ação no enfrentamento dos tumores ginecológicos. Veja o vídeo.

Um estudo de coorte na China, relacionando a amamentação e risco subsequente de 24 tipos de câncer materno com 157.454 mulheres com idades entre 40 e 75 anos, foram identificados 5.542 casos de câncer. Os resultados apontaram que o histórico de amamentação apresentou associação estatisticamente significativa com menor risco.  

AMAMENTAÇÃO: A BASE DA VIDA

Ufa. Acho que já dá para justificar o leite materno transbordar de agosto para setembro. E eu tenho certeza de que esses laços poderão se multiplicar para os próximos meses, ainda regados com esse líquido poderoso.

Entre os vários temas de Semana Mundial de Aleitamento Materno (passamos pela 35ª agora em 2.026), talvez um dos que mais representam essa proposta aconteceu em 2.018 (27ª SMAM):

AMAMENTAÇÃO: A BASE DA VIDA.

Sendo a base da vida, com certeza, em algum momento ela vai conversar com todos os tema da área de saúde, materno-infantil ou não, e, sempre com comprovação científica (que eu faço questão de trazer).

Quem sabe assim, e com o tempo (alguns dão o nome de paciência), com a persistência (alguns chamam de teimosia), com a repetição (alguns pensam em eco) juntos, conseguimos mudar o mundo, ou pelo menos, balançá-lo um pouco.

E para concluir, conforme combinado lááááá no começo desse texto, mais um pensamento de Robin Willians:

“Não importa o que as pessoas te digam, palavras e ideias podem mudar o mundo.”

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545