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Veja a reflexão do pediatra e colunista da CRESCER sobre como as redes sociais influenciam as escolhas em torno da amamentação e por que a decisão de amamentar deveria dizer respeito apenas à mãe e ao bebê
por Dr. Moises Chencinski - colunista
06/11/2026
As redes sociais são ferramentas poderosas de comunicação e transformação social, mas seu uso exige consciência, senso crítico e responsabilidade.
De uma forma “simples”, curta e “objetiva”:
-Comunicação é a troca de informações, ideias e sentimentos entre pessoas.
-Transformação social é a mudança na maneira como as pessoas vivem, convivem e se relacionam na sociedade.
-Consciência é saber o que fazemos, entender nossas escolhas e reconhecer suas consequências.
-Senso crítico é pensar, questionar e avaliar as informações antes de acreditar ou compartilhar.
-Responsabilidade é usar a liberdade de agir e se expressar com consciência, respeito e cuidado com as consequências para si e para os outros.
-Consequência é o resultado de uma escolha, atitude ou ação.
Fica fácil de entender por que o conceito e o uso de redes sociais são tão complexos?
E isso que, para não ficar cansativo, optei por não tentar simplificar termos como informações (que não necessariamente são verdadeiras ou éticas, ou embasadas em ciência), ideias (cada um tem as suas), sentimentos (tem especialidades na área da saúde mental focadas em tentar analisar e explicar essas emoções) e respeito (precisa de um texto inteiro só para isso).
As redes sociais são espaços digitais (virtuais) que aproximam as pessoas distantes, mas também afastam as pessoas próximas (literal ou filosoficamente), apenas através de conversas, trocas de ideias e compartilhamento de conteúdo e opiniões. Nem vou me alongar tentando explicar o que acontece em épocas de eleições ou em questões básicas de convivência como a uva passa no arroz de Natal (estão preparados para o que está chegando?).
Grupos de WhatsApp, YouTube, Instagram, Facebook, TikTok, Linkedin, X, Telegram, Pinterest são algumas das principais plataformas atuais, em que se criam movimentos em torno de interesses e causas comuns, com mobilização social, parcerias com influenciadores.
Um outro lado das redes sociais são os riscos gerados pela dependência digital, cyberbullying e exposição, intencional (na maioria das vezes) ou não, da vida pessoal, disponibilizando às empresas que administram essas plataformas dados dos usuários (os seus dados), que podem ser utilizados para influenciar comportamentos (os seus) e opiniões (as suas), espalhar notícias falsas e favorecer a discriminação de grupos mais vulneráveis (algoritmos).
Muito mimimi, muito lero-lero, muito drama?
Tá. Vamos direto ao ponto. AMAMENTAÇÃO EM REDES SOCIAIS.
Essa foi a motivação para esse texto. Recebo, diariamente, informações e estudos, sobre aleitamento materno e o mundo que o circula (estudos científicos, questões sociais, econômicas, estruturais) e, também, o que acontece no mundo em relação ao tema da amamentação, ou seja, a “influência dos influenciadores”, quer seja positiva ou negativa, na decisão de iniciar, continuar ou abandonar a prática e a oferta de leite humano para seus bebês / crianças.
Isso gera, na imensa maioria das vezes, embates tão calorosos quanto agressivos, pró e contra (quase ninguém se mantem neutro), em um tema que não deveria dizer respeito a mais ninguém, a não ser à dupla mãe-bebê, ao par lactante-lactente. A não ser pela questão econômica, gerando a intromissão da indústria de produtos lácteos comerciais, bicos, chupetas e mamadeiras, através de seu marketing invasivo e poderoso, que tem como único objetivo o lucro (não se iludam, não existe almoço grátis), não consigo imaginar qualquer razão para tanto alarde e julgamento em relação à decisão de uma mãe, bem informada, sobre amamentação.
Hoje recebi 3 notícias sobre grandes influenciadoras mundiais que geraram debates por suas aparições nas redes, com suas decisões a respeito de amamentação, mas vou ficar só com essa para não me alongar muito (mais rsrs).
Kourtney Kardashian* divide opiniões ao amamentar abertamente seu filho de 3 anos, Rocky, em reality show do Hulu
Essa foi uma matéria publicada no The U.S. Sun, que aborda uma das grandes discussões a respeito da recomendação da OMS sobre amamentação e sua duração:
“Aleitamento materno desde a sala de parto até dois anos ou mais, exclusiva e em livre demanda até o sexto mês.”
Sigam aqui alguns trechos:
“Muitos fãs ficaram chocados ao saber que Kourtney, de 47 anos, ainda amamentava abertamente seu filho, que completou três anos no domingo.”
A matéria cita alguns comentários:
"Quer dizer, a essa altura, deve ser algum tipo de brincadeira que ela está fazendo, né? Não tem como ela não saber como isso fica", comentou um usuário do Reddit .
"Claro! Ele vai fazer 10 anos e ela não vai parar", zombou outro.
"Mesmo que isso tenha sido filmado há um ano (aos 2 anos), ainda é considerado 'amamentação prolongada'", criticou uma terceira pessoa.
Ao mesmo tempo:
"A amamentação é algo muito pessoal e ninguém mais deve dar palpites, especialmente se ela quiser continuar, porque não é fácil", comentou uma fã.
“Não sou a maior fã da Kourtney, mas mesmo que ela ainda estivesse amamentando, isso é uma decisão inteiramente dela e do Rocky. Quando ele estiver pronto para parar e quando ela quiser desmamá-lo, essa decisão cabe a ela”, concordou uma terceira pessoa.
*Kourtney Kardashian tem 208 milhões de seguidores no Instagram.
Redes sociais. Amamentação.
As redes sociais ocupam hoje um espaço importante na construção de opiniões, comportamentos e escolhas relacionadas à amamentação, como ferramentas poderosas de comunicação, permitindo ultrapassar os limites dos serviços de saúde e chegar a diferentes públicos, ampliando o debate e estimulando a participação da sociedade.
Mas esse espaço também apresenta desafios pela velocidade com que as informações circulam, favorecendo a disseminação de mitos, notícias falsas, expectativas irreais e conteúdo sem fundamentação científica, além da publicidade disfarçada, os interesses comerciais e a atuação de influenciadores sem nenhum controle, que podem interferir nas escolhas das famílias e comprometer a confiança na informação.
Entre curtidas, compartilhamentos e seguidores, nosso compromisso deve continuar sendo com a ciência, os direitos das mulheres e crianças e a proteção, promoção e apoio à amamentação, e a ética, sem conflito de interesses.
Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545